Capítulo 1



                Pela segunda vez Emílio desviava seus olhos do livro que estava lendo para descobrir de onde vinha aquele barulho. Desta vez, porém, ele tinha certeza. Olhou em volta, mas não havia nada que pudesse provocar aquele som. Mas ele sabia que havia muitas outras sessões na biblioteca e principalmente que aquele som vinha de outro lugar. Estava preocupado. Colocou o marcador na página do livro que estava lendo, e lentamente o colocou sobre a mesa, levantando-se em seguida. Tinha que descobrir o que era, pois se realmente fosse o que estava pensando, tinha que estar pronto para sair dali. Caminhou até uma das escuras e velhas estantes de madeira repleta de livros e acompanhou sua extensão até que pudesse espiar pelo corredor sem ser visto. Olhou em direção à entrada e pode ver apenas a recepção, vazia. Na outra direção, havia apenas a porta fechada dos banheiros. Por um instante ocorreu a idéia de que se saísse correndo em direção àquela porta, mesmo que fosse visto, poderia chegar a sua saída sem problemas. Será que realmente conseguiria?

                Podia ouvir suas idéias em sua própria mente, pois o silêncio era absoluto. Se tivesse saído com seu relógio provavelmente poderia ouvir o trabalho dos ponteiros e das engrenagens. Quando, sem pensar, desviou seus olhos do corredor, percebeu a luz do abajur sobre a mesa, a única luz acesa com exceção dos raios de lua que entravam pelas janelas. Lentamente, mas com muita pressa, esticou-se até a mesa e apagou a luz. Se realmente havia alguém ali, já teria percebido a luz. Mas por que ainda não haviam o visto?

                Passou a mão pelo rosto para ajudar sua decisão e depois de uma pausa pegou o livro e o colocou em seu lugar na estante, com movimentos leves. Quando sua mão largou o livro, ouviu mais uma vez o som. Realmente vinha da direção da recepção e desta vez estava tão claro que parecia estar mais perto. Tentou imaginar alguma explicação boa para aquele som, mas àquela hora, nenhuma explicação seria boa. Novamente esgueirou-se pela estante e espiou pelo corredor, com o dobro do cuidado da primeira vez.

                No primeiro instante em que olhou, teve a impressão de ver um vulto negro atravessando o corredor de uma zona de leitura a outra, e rapidamente recuou. O silêncio agora era quebrado por sua respiração ofegante e ele podia sentir seu coração estufando seu peito, em batidas cada vez mais rápidas. Na verdade, parecia que as batidas estavam em sua garganta. Não havia mais dúvida, não havia mais opções. Teria que correr. Projetou sua cabeça mais uma vez no corredor, mas desta vez para ter certeza que poderia correr em direção aos banheiros. Fechou a mão nervosamente e antes de voltar à mesa, olhou mais uma vez na direção da recepção. De repente, sua respiração parou. E o movimento que já estava pronto para ser iniciado não teve seqüência. Seus olhos estavam bem abertos, olhando fixamente para a figura humana no meio do corredor. Não era mais um vulto negro, e sim um homem, que parado, observava-o. Engoliu seco e sentiu a adrenalina percorrer cada veia de seu corpo, até sentir seu estômago, suas mãos, pés e finalmente seu rosto com uma espécie de formigamento. Suas pernas queriam correr, sua boca soltar um grito e sua mente não sabia o que fazer ou pensar. Aos poucos foi ficando lúcido e percebendo que não poderia correr, simplesmente não daria tempo. Por outro lado, aquele homem com certeza não era nenhum segurança ou vigia, e estava com um livro em sua mão esquerda. E de fato não sentiu que pudesse ser uma ameaça real. Soltou um suspiro de alívio, liberando toda a tensão que apertava seu peito.

                - Quem é você? - indagou o estranho.

                - Você não deveria estar aqui. - comentou com certa dificuldade devido a sua garganta estar seca.

                - E você deveria?

                - Não. Mas estou - completou depois de uma breve pausa.

                - Estou vendo.

                - Mas já estou indo.

                E realmente já estava na hora de partir. Era mais de duas da manhã e geralmente nesse horário ele já estava a caminho de casa. Aquela noite havia descoberto pontos importantes de sua pesquisa e não podia simplesmente interrompê-la. Mas agora, ela já havia sido interrompida. Quis confirmar o horário no relógio que ficava na parede da biblioteca, mas a escuridão o impedia de ver. Confiou em seu instinto.

                Voltou-se para a mesa e caminhou em sua direção. Seu corpo ainda estava mole.

                - Espere!

                Colocou alguns papéis com suas anotações dentro de uma velha pasta preta de couro e por último uma caneta. Fechou a pasta e nesse momento o estranho apareceu no corredor.

                - Eu conheço você?

                - Acho que não - respondeu Emílio ainda verificando se havia mais alguma coisa sobre a mesa e se tudo estava como havia encontrado. Era especialista nisso.

                - E você me conhece?

                Olhou bem para o estranho e dessa vez notou que ele estava descalço. A luz da lua entrava claramente pela janela ao lado da mesa de leitura e iluminava bem o estranho. Admirou-o pela astúcia dos pés descalços e pensou que se não fosse pelo frio poderia usar a mesma estratégia. Mas lembrou-se que mesmo assim e estranho havia feito barulho, demonstrando não ser tão astuto assim.

                - Com certeza não.

                Era evidente que ele não estava entendendo aquela situação e estava mais perdido do que o próprio Emílio, e aquela expressão de incerteza eliminou o resto de medo que ainda poderia existir.

                - Estranho. Muito estranho - completou o estranho após uma pausa pensativa.

                Emílio não pode conter um pequeno sorriso sarcástico.

                - Acho que tudo isso é estranho, não?

                - Sim. Tudo é estranho para mim. Tão estranho que eu achei que nada mais pudesse me surpreender.

                - A vida é cheia de surpresas. Principalmente à noite.

                Diante da perplexidade do outro homem, Emílio pôs a pasta debaixo do braço e caminhou em direção ao corredor. O homem soltou os braços que estavam cruzados e acompanhou-o com o olhar atônito.

                - Aonde você vai?

                - Para casa. Já é bem tarde - completou após a parada que fez em frente ao estranho. - Adeus.

                - Espere!

                Emílio já estava no corredor a caminho dos banheiros e o homem começou a acompanhá-lo.

                - Preciso ir - respondeu sem parar ou olhar para trás.

                - Mas... Você não quer saber quem sou?

                - Não - respondeu parando. - E espero que você não queira saber quem sou.

                Parado o estranho sentia que quanto mais conhecia daquele homem mais se surpreendia, e sabia que não conhecia nada. Perdeu-se em suas vãs hipóteses de quem poderia ser aquele homem. Quando percebeu que sua tentativa era inútil, Emílio já estava a poucos passos da porta dos banheiros.

                - Você não é da Ordem! - gritou em tom conclusivo.

                - Ordem? Eu sou apenas um leitor. Apenas isso - respondeu ao parar pouco antes de entrar pela porta.

                Quando viu que Emílio havia entrado pela porta que dava acesso aos banheiros, colocou-se a correr em sua direção. Não sabia o que fazer e desejou não estar sozinho naquele momento. Mas sabia que as pessoas confiavam nele e que ele era capaz. Já não era mais um principiante e o principal: não poderia desistir agora. Quando entrou no banheiro masculino viu Emílio sobre a pia, apoiando-se na janela, sem mais sua pasta.

                - Você não pode sair assim! - disse interrompendo o pulo que estava prestes a acontecer.

                - E por que não?

                - Porque... Porque estamos aqui pelo mesmo motivo!

                - Sim - respondeu apontando para algo no homem. - Pelos livros.

                Emílio apontava para o livro que o estranho ainda segurava em sua mão, uma edição de O Mundo de Sofia, de Josteein Gardner. Quando o homem desviou seus olhos do livro e os colocou de volta na janela, ele já havia pulado e agora se esforçava para fazer passar suas pernas. Num impulso o estranho soltou o livro e avançou sobre Emílio, agarrando-se a uma de suas pernas. A outra já se dobrava para sair pela janela.

                - Solte-me! - gritou Emílio quase perdendo o equilíbrio.

                - Não! Precisamos conversar!

                Ele lutou e lutou para livrar sua perna e percebeu que não conseguiria simplesmente puxando-a; ela era segurada por dois braços determinados. Teve a idéia de voltar a outra perna para atacar seu adversário, mas hesitou, pois não era de seu feitio. Mas o que poderia fazer? O homem o agarrava com toda a sua força e sabia que não poderia deixá-lo partir. No entanto a outra perna travava seu corpo e então pensou em puxá-lo pelo cinto, até ver aquilo. Seus olhos, que até aquele instante estavam quase fechados pelo esforço abriram-se atônitos, num misto de horror e incredulidade. Poderia ter sentido o pânico tomando seu corpo, mas os efeitos iam direto para a sua alma, e num instante parou petrificado, boquiaberto.

                A perna escapou facilmente de seus braços e num movimento passou pela janela, fazendo desaparecer a figura de Emílio, que caiu no chão, fora da biblioteca municipal. Mal conseguiu se levantar e pegar sua pasta, começou a correr em direção à rua, apenas se preocupando se o estranho não pularia a janela para segui-lo. Mas assim que chegou na calçada da deserta rua, passou a mão por todo seu corpo, para ter certeza de que estava bem. Checou cada parte para verificar se havia algum arranhão que fosse, e nessa tarefa se aproximou da luz de um poste. Depois de examinar cada centímetro, por diversas vezes, e ver que não havia nada senão uma roupa amassada, um sapato perdido e uma testa cheia de suor, lembrou-se do estranho e olhou para janela, que mal teve tempo de fechar.

                - Droga!

          O homem que havia deixado para trás, ainda permanecia imóvel no banheiro, encostado na pia, com os braços recolhidos num gesto que junto com seus olhos arregalados e sua boca aberta denotavam seu estado de choque. A imagem que havia visto ainda estava gravada em sua mente, como se aquela perna ainda estivesse pendurada pela janela. Olhou finalmente para suas mãos para crer que elas realmente haviam tocado aquilo. E então, no chão do banheiro, por entre os seus dedos, com a pouca luz lunar que vinha da janela, viu aquela imagem que o detivera se concretizar: um sapato.